espinosa e o bem absoluto
Espinosa buscava algo que todos nós gostaríamos de encontrar: algo que o preenchesse absolutamente, que não fosse uma alegria passageira, nem parcial.
Isso não existe a não ser nas promessas das religiões ou algum desses coach que fazem promessas mirabolantes.
Antes de prosseguir, vamos lembrar que Espinosa foi um filosofo rigoroso muito distante de qualquer proposta mística ou duvidosa das que nos deparamos por ai.
Espinosa se debruçou sobre esse tema, abriu mão dos prazer, riqueza e honras para fazer sua experimentação e pensar sobre essa possibilidade. Vemos essa experiencia e pensamentos relatados no Tratado da Reforma do Pensamento. E sim, ele encontrou uma resposta. Espinosa relata seu percurso e o modo como alcançar esse "bem maior", um modo "absoluto" de existir.
Em seu Tratado, o filósofo afirma que há um modo de existir onde a vida pode ser plenamente preenchida de alegria contínua e suprema.
E como algo tão bom não é amplamente conhecido, estudado e divulgado? Uma maravilha dessas era pra ser aprendida desde a infância. Deveria, ao meu ver ser um método acessível a todos nós desde pequenos. Se isso é verdadeiro porque perdemos tanto tempo em buscas por experiencias, pessoas, objetos, dinheiro, bens que nos preenchem de forma parcial, por tempo limitado e que por fim pode acabar nos trazendo males?
E o que é isso que tem esse poder de nos trazer tal alegria que não tem fim, que pode preencher nossa vida de tal forma que nada nos falte? Se isso existe certamente é algo muito complicado de se alcançar, que se tem acesso com muita penitencia ou é necessário um exílio solitário. Talvez seja algo alcançado depois da morte.
Não. Nada disso.
O problema em se encontrar tal alegria está em nosso modo de pensar. Sim, a maneira como estamos habituados a pensar nos separa do que podemos ser. Por isso foi necessário escrever justamente sobre a "reforma do pensamento".
Isso está parecendo algo muito abstrato, daquele tipo de proposta do "poder da mente". Imagino quanto esforço e renuncia são necessários para alcançar essa alegria espinozista. Deve-se viver coo um monge budista longe de tudo que seja prazer humano? Isolado num mosteiro? Algo do tipo?
Na verdade, as coisas são muito simples nossa maneira de pensar que complicou tudo. Inventaram um modo de pensar moralista e foi assim que nos separamos de nossa potência. Se observamos um bebê quando nasce, crianças ainda muito pequenas (muito cedo elas já são envenenadas pela moral), vemos neles uma plenitude, essa alegria.
É ao que nossa formação social através do que Nietzsche chama de "padres' (que não são somente o padres da igreja católica, mas também muitos psis, saberes, e muito dos que contituimos como autoridades de conhecimento e poder sobre nós, veem nos dizer que é necessário abrirmos mão de nós por algo maior, pelo social, pelo sistema. Com esse argumento vão nos adaptando a moral vigente, nos adequando as expectivas sociais.
Mas a proposta de Espinosa não se trata de liberar os instintos humanos para fazer o que "der na telha". Não é disso que se trata.
A questão é o que houve em nosso processo de introdução na cultura que nos separou de nossa potencia? O que nos entristeceu de tal forma que não encontramos mais alegria que dure, que seja plena? Precisamos sempre de algo novo, de novos investimentos que nos de "sentido pra viver". Um criancinha precisa de sentido pra viver? Ela é plena, alegre. Até que lhe mudem a forma de ver a vida, a forma de pensar a existência de modo que ela terá que ir sempre atrás de novos ideias que lhe sao ofertados para suprir de forma parcial e temporária o "buraco" que lhe criaram. Isso mesmo. As formações sociais nos tiram a potência de existir, a alegria de viver e depois nos oferece paliativos. A cenoura à frente do cavalo.
Muitos passam pela vida satisfeitos com tudo isso, mas muitos se cansam pelo caminho, muitos se dão conta de que isso não satisfaz plenamente e não desejam continuar se vendendo, sendo desonestos consigo em prol de um ideal externo. São os cansados de viver de objetivo em objetivo, meta em meta, conquista a conquista, um diploma após outro, um cargo acima, um carro novo, uma família, viagens, amigos, relacionamentos, sexo, status... e por ai vai a enorme lista de entorpecentes que nos oferecem para que consigamos viver separados de nossa potência, alienados a nós mesmos, adapatados as exigências e expectativas sociais.
Geralmente são estes que buscam a filosofia ou que se simpatizam por ela. Porque a filosofia não atrai pessoas adaptadas, motivadas com esse modo de vida rebaixado. Ela atrai os que não estão satisfeitos, os que pensam haver outras formas de existir que não essas que capturam nossas forças, nossos desejos em prol da maquina social.
Dito isso, voltamos a questão de Espinosa. Ele inicia o Tratado da Correção do Intelecto questionando algo que o preenchesse absolutamente, que não fosse uma alegria passageira, nem parcial. Para Espinosa a felicidade ou infelicidade de alguém depende da qualidade do objeto ao qual seu amor se adere.
Vemos que as opções que nos oferecem desde a infância são objetos de amor parciais, perenes.
Haveria um objeto eterno e contínuo?
E sim, Espinosa nos aponta em suas obras uma forma de amor que nos preenche e nos alegra de forma absoluta. No entanto é necessário fazer a Reforma do Intelecto. E o que seria essa reforma. Seria a mudança de um pensamento moral que nossa formação social incutiu em nós para uma forma de pensar ética.
Falando muito resumidamente, identificar esses penduricalhos que a moral nos incutiu e não pensar mais sobre essas bases.
A
moral é uma prática, uma invenção a eleição de uma maneira de ser que
acredita no progresso e no melhoramento da existência. Uma vez que a
moral liga a existência a um ideal que impõe a ela um "dever ser". A
medida que se obedece esse ideal vai se melhorando, purificando,
calcando degraus, progredindo, ficando mais feliz, mais útil.
Trata-se de mediações para se alcançar a felicidade. Tudo isso se faz necessário porque nessa forma de pensar algo nos falta, sempre algo nos faltará. A psicanálise parte tb, desse pressuposto e acredita num "mal estar" necessário ao aculturamento. Mas se retiramos esse pressuposto? Se fizermos uma "reforma" em nosso intelecto e passarmos a pensar partindo do ponto que "nada nos falta".
Mas como "nada nos falta" . Eu ainda nao tenho minha casa propria, nao consegui aquele diploma, meus netos ainda nao nasceram, ou nao encontrei minha cara metade, não escrevi meu livro, nao adquiri minha casa de campo?
Nada disso é ruim em si, mas se nos fixamos a algum desses ideais ou investimos nossa potencia nesses objetos perecíveis e parciais nós estamos fadados a uma vida vulgar.
Quando fazemos a reforma do pensamento e compreendemos que à vida nada falta, que ela é absoluta, plena, perfeita, inciamos uma nova postura, um novo modo de viver e de nos relacionamentos com tudo isso que antes eram coisas necessárias à nossa felicidade. O trabalho, o livro por escreve, a casa no campo, os relacionamentos, etc, etc,.... nada disso captura nossas afetos de forma a ser nossos maiores bens. Passamos a amar a vida como potencia de acontecer, efetuar.
O modo moral de pensar precisa de mediações, é a sociedade, o outro quem atribuiu o valor de de nossas conquistas, o valor de nossa vida. Amar á vida é um modo ético de viver. Espinosa escreveu um livro intitulado Ética, onde fala desse novo modo de viver não baseado na moral mas no amor à vida.
Porque precisamos de "sentidos pra vida"? Porque nos ensinaram que a vida nao basta, fomos educados para pensar que precisamos seguir passos, calcar degraus para conseguirmos a felicidade. Numa maneira ética de pensar, depois de uma "reforma do intelecto" nenhum objeto é mais nosso ideal. A vida é plena.
Então depois dessa reforma do intelecto eu nao vou precisar fazer mais nada? nada de trabalhar, estudar, namorar, ter minha casa, filhos...?
Não,
mas maneira como nos ligamos a tudo isso muda. Nosso amor nao estará
mais ligado a essas cosias mas ao que nos acontece na relação com elas.
E depois dessa "reforma do intelecto" nunca mais experimentamos tristeza?
Experimentos tristezas a medida que nos separamos da potência da vida, que nos ligamos novamente aos ideias, que nos deixamos afetar pelo que vem de fora de maneira que isso nos separa da vida, que nos distânciamos da imediato e valorizamos ideias, que nosso amor se liga a esses objetos e ideias ao invés de se ligar a potência, ao que nos acontece nas relações.
Mas podemos retomar a alegria de viver nos reconectando com a vida. Nos distanciando de ideais estabelecidos e nos ligando ao imediato.
Continua ....
Cobtinua
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